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TÍTULO DA PESQUISA

A imagem na escola: cultura visual, arte e formação escolar.

PERÍODO:

2015 - 2017

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

Redes de conhecimentos e práticas emancipatórias no cotidiano escolar

FINANCIAMENTO(S)

FAPERJ - Jovem Cientista do Nosso Estado 2015-2018 Prociência - 2015 - 2018

Trata-se de uma pesquisa dedicada à investigação e discussão sobre os modos juvenis de ser e ficar nas escolas, com um olhar particularmente dirigido aos corpos e a produção estética e relações com a Cultura Visual, Imagens e Arte, portanto, política que realizam. Uma investigação a respeito da figuração estética que os jovens põem em relevo quando se singularizam para dizer o que são e territorializam e, por meio das suas imagens, as diferenças que desejam que se façam presentes com suas vidas. O ponto de partida é a admissão de que, nas escolas, a beleza é uma produção juvenil relativa à intenção da autonomia do estudante frente às práticas de poder que a institucionalização escolar difunde. Em outros termos, a produção estética, especialmente no universo juvenil, é inseparável das movimentações emancipatórias, na medida em que são geradas em consonância com a intenção libertadora. No que toca especificamente à educação e centralmente ao ensino da arte nos leva, a nós que nos ocupamos desse campo nas universidades, a repensar as tradições e as contradições dos percursos e percalços dos ensinos das Artes na educação básica. Assim o caminho da pesquisa é a investigação da produção estética dos jovens nas escolas públicas, e perscrutar o sentido estético e político da beleza como produção juvenil relativa à busca e exercício da autonomia frente às práticas de poder que atravessam e, sob muitos aspectos, se disseminam no cotidiano escolar.

    

TÍTULO DA PESQUISA

Culturas juvenis& e vidas bonitas nas escolas: ensino da arte, cultura visual e cotidiano.

PERÍODO:

2014 - 2016

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

FINANCIAMENTO(S)

Resumo
O caminho da pesquisa é a investigação da produção estética dos jovens nas escolas públicas, suas aproximações e enfrentamentos ao assédio das imagens visuais e perscrutar o sentido estético e político da beleza como produção juvenil relativa à busca e exercício da autonomia frente às práticas de poder que atravessam e, sob muitos aspectos, se disseminam no cotidiano escolar. Trata-se, então, de uma pesquisa dedicada à investigação e discussão sobre os modos juvenis de ser e ficar nas escolas, com um olhar particularmente dirigido às produções estéticas, portanto, políticas que os estudantes da educação básica realizam dentro ou fora da oficialidade curricular. Investigação da figuração estética que os jovens põem em relevo quando se singularizam para dizer o que são e existencialmente territorializam e, por meio das suas imagens e de suas relações com as imagens, as diferenças que desejam que se façam presentes em suas vidas. O ponto de partida é a admissão de que, nas escolas, a beleza é uma produção juvenil relativa à intenção da autonomia do estudante frente às práticas de poder que a institucionalização escolar difunde. Em outros termos, a produção estética, especialmente no universo juvenil, é inseparável das movimentações emancipatórias, na medida em que são geradas em consonância com impulsos ou intentos libertadores como toda criação e ação poética o é e se afirma na realização da vida como realização poética. No que toca especificamente à educação, e centralmente ao ensino da arte, nos leva, sobretudo aos que se ocupam desse campo nas universidades, a repensar as tradições e as contradições dos percursos e percalços dos ensinos das Artes na educação básica.

INTRODUÇÃO TEMÁTICA

A intensa movimentação de valores, de questionamentos, perplexidade e ressignificações, que varre a contemporaneidade também impõe a todas as instituições a reavaliação de seus princípios e de suas práticas. Em face da inegável, intensa e complexa produção de visualidades, modos de ver e produzir imagens, e sentires desses tempos de agora, o trabalho educacionalmente outorgado para lidar com as imagens e com suas relações e significações estéticas, bem como com o conhecer e proceder artísticos carece de enfrentamentos aprofundados com suas questões intestinas, suas histórias, suas atuações e seus desejos de futuro. Para tanto, no âmbito da educação pública urge deflagrar iniciativas de pesquisa que, desdobradas em movimentação de certa amplitude, possam contribuir com o entendimento das forças da estética para além da arte, ou seja, dentro do universo estético da vida como obra de arte, nos fazeres cotidianos como fontes epistêmicas que venham a subsidiar a educação do presente. O caminho da pesquisa é a investigação da produção estética dos jovens nas escolas públicas, e, centralmente, perscrutar o sentido estético e político da beleza como produção juvenil relativa à busca e exercício da autonomia frente às práticas de poder que atravessam e, sob muitos aspectos, se disseminam no cotidiano escolar.
Vista como instituição modelar da modernidade, institucionalmente a escola reúne os objetivos de produção de indivíduos adequados a finalidades econômicas e sociais restritas. Viver nas escolas implica, para o corpo discente, a adoção de posturas, condutas e ações divergentes, singularizações que desafiam o instituído. Vistas tais ações como atuação tática certeauniana, configuram-se nas identidades juvenis instituintes de valores, princípios e formas relativamente autônomas ao projeto educativo hegemônico e homogeneizador.
Movimentações que se traduzem em um universo de criações no qual as energias mais notáveis são a estética e a invenção da beleza, pois, como destacada prática juvenil, a produção da beleza adquire uma posição nuclear nos agenciamentos que arrebatam a juventude e dos que são realizados pelos estudantes nas escolas.
Como beleza, refiro-me a toda impressão que visam os estudantes por meio do corpo, marcas e gestos que realizam na busca de reverberações para o acontecimento das suas vidas. O interesse é, portanto, relacionar a produção da beleza com a emergência dos novos territórios de embate entre as forças reguladoras contidas nos campos estratégicos, ou seja, outorgados, do ensino da arte e as potências emancipatórias que emergem nos fugazes territórios táticos das relações sociais juvenis, campos de lutas políticas e de reposicionamentos sociais característicos da contemporaneidade.
Para a trajetória proposta sublinho algumas referências determinantes à sua condução: Foucault com o conceito de estética da existência; Maffesoli, com o conceito orgiásmo como força basal do equilíbrio societal; Boaventura S. Santos, com a exploração da tensão entre a regulação e a emancipação como perspectiva de entendimento das sociedades contemporâneas e sua noção de redes de subjetividade; Certeau com o conceito de estratégia e tática como tensão dinamizadora do cotidiano e finalmente Oliveira e Alves com a noção da operacionalidade da tessitura conhecimentos via as redes de subjetividades que se manifesta em cada praticante e em cada prática cotidiana.

Justificativa
Pesquisas, publicadas em artigos e livros, reconhecem como fenômeno crescente o protagonismo juvenil na afirmação de valores, conceitos e concepções a respeito do mundo e da própria vida. Este interesse, distribuído entre a sociedade civil, o Estado e organismos internacionais, tem articulado políticas para a juventude, visando organizar e direcionar todo este cuidado dos jovens com a existência. Sobretudo o problema do governo das cidades, onde a experiência da escassez e da diversidade (cultural, mas também econômica e social) tem proporcionado uma vigorosa preocupação com a segurança e com a vivência do espaço público, aponta para a importância da disciplina, do controle e da contenção das ações juvenis.
As escolas são instituições privilegiadas desta atenção com a juventude. Para as escolas são concebidos planos educativos para viver a urbanidade e a pedagogização das condutas na cidade ganha um interesse renovado no currículo. A admissão de uma cultura juvenil põe em relevo a apreciação, avaliação, censura e correção dos modos de vida dos alunos. Trata-se, assim, de uma questão de preeminente valor acadêmico e pedagógico. Destaca-se também o fato de que as pesquisas sobre o cotidiano escolar ainda representarem um campo de renovação dos estudos sobre a educação, rompendo com as modalidades mais formais de investigação quando buscam os aspectos mais integrais do poder, mas também da constelação das recusas, contestações e afirmações que nas escolas se ensejam como contradição e luta.
Investigar a juventude escolar sob a perspectiva das (suas) produções e relações estéticas e seu relacionamento com os espaços formais do ensino da Arte ganha relevância na medida em que as sociedades na contemporaneidade são, como jamais o foram, atravessadas, movimentadas e marcadas pelos discursos e agenciamentos imagéticos e estéticos.
Objetivos
Os objetivos são de duas ordens: pedagógico e científico. O objetivo pedagógico é o de contribuir para os conhecimentos a respeito das criações e ações juvenis nas escolas e a consequente formulação de práticas educativas mais dialógicas e produtivas, reconhecendo o protagonismo do alunado e, dessa forma, corroborar com o ideal da autonomia e da liberdade como finalística da educação. O objetivo científico é o de analisar as características da produção política dos jovens nas escolas, identificando o que visam (contra o que lutam e o que procuram afirmar) e como são construídas (suas ações táticas e seus respectivos recursos) e, sobretudo, as relações que nesse âmbito são dinamizadas pelo atual ensino da Arte.
Método e metas
O desenvolvimento da pesquisa proposta contemplará um leque de investigações sobre tudo que cerca e enreda as produções estéticas juvenis nas escolas, dessa forma, terão destaque as elaborações e discursos curriculares do atual ensino da arte, as visualidades e estéticas juvenis, os entendimentos de seus jovens autores e das relações e tensões entre todos esses aspectos.
Todos os estudos que se ocupem das estéticas e artes presentes no mundo juvenil, sobretudo nas escolas públicas, bem como dos discursos a respeito da arte e da estética veiculados pelo ensino oficial da arte vem ao encontro de nosso interesse. Portanto, os seguintes temas são pontos de significativo encontro na rede da pesquisa:
- Currículos oficiais de arte
- Produções estéticas juvenis
- Visualidades e estéticas da escola
- Os corpos como suporte das estéticas identitárias
- Tribos e galeras
- Iniciativas e projetos escolares no campo da arte
- Ensino das artes e suas práticas
- Manifestações artísticas e estéticas juvenis
- Grafite, pichação
- Fanzines
- Músicas e festas
A perspectiva dessa abordagem é de que a vida juvenil hoje, especialmente nas grandes cidades, tem chamado atenção pela presença constante nos acontecimentos nos âmbitos da cultura, do social e da política. Em manifestações artísticas, nos variados novos movimentos sociais ou na militante participação política, os jovens são representantes cada vez mais ativos e numerosos. Percepção conjugada cada vez mais com a idéia de que são, sob certas circunstâncias sociais, uma potência perigosa, ameaçadora e a deriva.
Portanto se por um lado há a percepção de que os jovens podem ser protagonistas privilegiados das ações culturais, econômicas, sociais ou políticas concebidas pelos variados agentes do poder (sejam empresas, o Estado ou organismos internacionais), por outro lado, existe também a sentida necessidade da gestão de uma juventude considerada em risco: aquela que vive de forma mais direta a experiência da pobreza, a falta de assistência e o sentimento da desesperança, com o conseqüente ingresso no estado de anomia social.
Nas escolas, buscaremos captar a projeção desta ambivalente consideração sobre os jovens. O que deles se espera em relação a um ideal social que o mundo adulto fixa. Suposta maturidade e vivência transmitida através dos princípios educativos ensinados, da seleção curricular adotada e da formação concebida, além das regras que são prescritas para a aprendizagem da civilidade, dos hábitos superiores que devem ser desenvolvidos e das sanções definidas para a correção dos caminhos seguidos, entre as práticas admitidas. A expectativa é a aceitação (ou tolerância) e a convivência pacífica com a ambição da modelagem. E meio a isso tudo os entendimentos sobre a beleza e a criação estética desempenham papéis importantes e que demandam novas leituras e revisões.
No entanto, o que se assiste nas escolas é a irrealização do poder. O que a administração escolar e os professores cada vez mais reconhecem é a dificuldade para a concretização dos objetivos que a escola assume e que a educação deveria cumprir. Com efeito, assistimos a conjunto de reações entre a desistência de ensinar (ou pelo menos da desistência de se ensinar como se acredita que deveria) e o recrudescimento dos aparatos de vigilância, controle e punição escolar. Portanto, o que se verifica com freqüência na agência escolar, são o próprio descrédito em relação ao ato de educar e a continuada adoção das formas discricionárias de agir. No que concerne a particularidade de cada disciplina tal efeito é estendido. No ensino da arte, que deveria guardar relevante proximidade com os acontecimentos da vida juvenil, aparentemente o estado das artes é o mesmo do macro espaço escolar.
Em relação aos jovens, não é o conhecimento sobre o caráter diretivo da educação e o seu largo alcance social o problema preeminente para a consciência adquirida sobre a escola e a condição subalterna de quem é estudante. Pelo menos não é diretamente. São as formas de sua inserção social, difusas entre a família, o lazer e a presença nas instituições características da vida juvenil (sobretudo a própria escola) que criarão o ambiente onde se desenvolverá a consciência sobre as atribuições, desempenhos e plenitudes que lhes são reservados na sociedade, no presente e para a vida adulta.
Portanto, é através principalmente dos elementos próximos – práticos e simbólicos – da vida cotidiana que a distribuição desigual do poder na sociedade é pressentido que o governo de outros indivíduos sobre suas vidas é calculado e os constrangimentos das relações sociais são experimentados. É também neste plano mais imediato do que é vivido que desenvolvem a virtual faculdade de dirigir a própria vida, mostrando-se descontentes com o que parece imposto ou deformador das suas vontades, revelando a disposição para assumir condutas contestatórias e auto-suficientes.
Nas escolas, esta determinação para demonstrar valores contrários e agir com oposição, sugerindo deserção e diferenças, realiza-se de variados modos, sobretudo comportamental. Aqui, não são as formulações discursivas os atos mais pregnantes. É o corpo que tem a preferência dialógica na comunicação juvenil. É com ele que será dito como vêem o mundo e a si próprios, posicionando-se sobre o que é relativo a suas vidas. Corpo ordinariamente natural transformado em um atributo monumental da cultura contemporânea.
A observação (e a interpretação) do cotidiano escolar nos permitirá uma variada percepção de como os corpos agenciam canais de encontro e linguagens por meio e através das imagens que encarnam. É o que acontece com a criação de gestos que multiplicam as funções simbólicas do movimento, o que pode ser visto na programação de inúmeras posturas corporais. É também o que ocorre quando se dá a adoção de objetos de consumo como próteses que visam amplificar as realizações dos sentidos. Algo possível de ser notado na posse que fazem dos mps, na exposição e manuseio constante de celulares ou na circulação de books com fotos das alunas. Ou ainda, quando qualidades naturais do corpo transformam-se em capacidades superlativas das identidades. Um exemplo é cantar, quando as poesias funks enunciadas associam modos de vida e pertencimentos culturais. É, inegavelmente, é o jogo criativo da produção estética o que sobressai em suas formas de acontecer individual e coletivamente.
A hipótese que será testada nesta pesquisa é que este repertório de usos do corpo, destinado à ascensão da beleza em suas vidas, desenvolve um sentido estético para ‘o existir’ de valor distintamente político. Embora no cotidiano escolar prevaleça à ação aparentemente comum e banal dos sujeitos da educação, trata-se de uma rede de presenças feita de micropolíticas, encontros e desencontros e de sutis montagens das engrenagens do poder. Em relação a esse último aspecto, é possível facilmente perceber a freqüente ocorrência entre os meninos e meninas a assunção de táticas de resistência e a proclamação de lutas. É o que se pretende discutir com a pesquisa, avaliando a extensão política destes confrontos e seu significado para a contemporaneidade, sobretudo em face dos discursos veiculados pela educação oficial a respeito da beleza e da atuação estética.
Visando uma apreensão determinada do que se pretende verificar com a pesquisa e o controle das fontes requeridas para o desenvolvimento da questão submetida ao nosso exame, será delimitado o grupo submetido a este estudo. Está circunscrito ao segmento escolar de 1ª a 3ª série do ensino médio, portanto, compreendendo jovens entre 15 a 18 anos aproximadamente. O recorte obedeceu a um critério de oportunidade (mas também biográfico) relativo à observação. Este pesquisador lecionou vários anos (até fevereiro de 2006) neste segmento de ensino, na rede pública estadual do Rio de janeiro, como professor de Educação Artística. Condição que possibilitou o acúmulo de referências e material apropriado à pesquisa.
Por outro lado, também oportunamente, as disciplinas que ora leciono no Instituto de Artes, Metodologia, Arte - Educação e Prática de Ensino remetem-se diretamente ao cotidiano escolar. Portanto, é a conveniência do contato próximo de muitos anos como professor destes jovens agregado aos anos de trabalho com formação de professores de Arte para a educação básica que me fez escolher o aprofundamento do estudo, tema do meu doutoramento, e que ocupa a centralidade da pesquisa proposta.
Admitir que os fatos a serem analisados e as questões a serem respondidas são complexos, neste mundo simples que é o cotidiano, vai colocar a necessidade de inverter todo o processo aprendido: ao invés de dividir, para analisar, será preciso multiplicar – as teorias, os conceitos, os fatos, as fontes, os métodos etc. Mais que isso, será necessário entre eles estabelecer redes múltiplas e também complexas relações. Alves (2001:25).
No espaço e no tempo da pesquisa no/do cotidiano, nos quais a interrogação dos sentidos que damos à pesquisa é permanente, não há refúgio teórico nem prático que separe os olhos dos que vêem daquilo ou daqueles que são vistos (Oliveira e Sgarbi, 2002:23). Em outras palavras, penso que, em qualquer pesquisa nessa órbita, o pesquisador é inexoravelmente inseparável daquilo que investiga.
Considerando que professores e professoras, alunas e alunos estão dinamicamente enredados nas tragédias e comédias do dia-a-dia escolar, o desafio da pesquisa residirá, inicialmente, na dificuldade e risco da escolha das formas e dos meios pelos quais se darão os processos investigativos que abordarão sujeitos enredados com tantas histórias em tantas diferentes situações. Será preciso escolher cuidadosamente o primeiro passo, e para este primeiro movimento, a isenção, a imparcialidade e a neutralidade poderão revelar-se posicionamentos impossíveis em face das surpresas e demais peculiaridades cotidianas, sobretudo, aquelas que marcam os envolvimentos que acabam por ligar os pesquisadores aos estudantes. Sob essa perspectiva, o respaldo da mítica rigidez da exatidão científica, assim como a maioria das técnicas tradicionais da etnografia moderna, sem serem desconsideradas, poderão mostrar-se de utilidade parcial.
A dimensão do desafio metodológico é vislumbrada na medida em que é preciso dar-se conta de que para alcançar a desejada aproximação com o cotidiano não se pode contar com o recurso das técnicas disciplinares tradicionais que são armadas pelo rigor metodológico. Por outro lado, conforme propõe Oliveira (2003:72 e 73),
se nos mantermos excessivamente ligados a premissas predefinidas a respeito do que pretendemos pesquisar, em função daquilo que acreditamos já saber, criamos, em nossas redes, “nós cegos”, que subtraem dela algo de sua maleabilidade e, portanto, da possibilidade de entradas e articulações de novos fios de saberes ao anteriormente sabido.
Porque, nesse modo de pesquisar, a flexibilidade das ações investigativas deve ser permanente para que se possa dialogar com a sucessão de acontecimentos que vibram o cotidiano e cujas relações não se mostram imediatamente claras, visto que os canais de ligação entre este ou aquele fato são rizomáticos, muitas vezes subterrâneos, muitas vezes invisíveis ao olhar interrompido na superfície das práticas. Como esclarece Maffesoli (2005:104):
... a efervescência epistemológica perceptível em nossas disciplinas acadêmicas é o indicador mais claro dos diversos deslocamentos em ação nas sociedades contemporâneas. È inútil retomar a saturação dos grandes sistemas explicativos, pois isso agora é uma evidência. Em ricochete isso fragilizou as certezas metodológicas e as grades de leitura preestabelecidas e aplicadas a priori em qualquer situação social.
Da rede de ações que nortearão a pesquisa destaco cinco elementos centrais, que não se diagramam em ordenação hierárquica: considerar a poética da vida dos praticantes da cena investigada; considerar o afeto que nos (nós professores/pesquisadores) liga à escola pública; considerar o possível aproveitamento dos resultados deste trabalho na ajuda aos que lá estão (Ferraço, 2003:72); investir no diálogo aberto com os protagonistas com as imagens da escola e finalmente, redimensionar, a todo o momento, as distâncias entre o pesquisador e o campo pesquisado, procurando não perder a noção da complexidade e da riqueza das ações de seus praticantes.
O elemento norteador da metodologia a ser aplicada será a força central do cotidiano, ou seja, a poética que emana da própria ambiência da pesquisa: o acontecimento da vida dos sujeitos que o produzem. Explorar a potência do cotidiano seria impensável sob a tutela de abordagens e registros guiados por qualquer unidade metodológica rígida, pois entendo que, para esta aventura investigativa, a idéia de uma metodologia concebida e estruturada em procedimentos regulares não levaria além da ilusão de uma tradução limitadora/redutória de algo que prima pelo constante transbordamento de seus próprios limites.
O método ou o caminho que proponho deverá acontecer destituído da pretensão de sua cristalização teórica, ou seja, da possibilidade de transmutação de sua experiência singular para um esquema acabado que pudesse ser aplicado automaticamente à outras pesquisas. Sobretudo, porque a metodologia que deverá ser aplicada será criada mediada pelas ocorrências cotidianas a serem encontradas. De forma que em cada procedimento adotado deverá ser buscada alguma sintonia com as ações e acontecimentos investigados.
Uma das maneiras de investigar o cotidiano escolar é via sua prolífera produção imagética. Essa deverá ser a forma privilegiada para a condução deste trabalho. Pois, acredito que diante do olhar e sentir desarmados em conjunção com a curiosidade livre, os jovens revelam suas peculiaridades, suas estéticas e suas relações com a escola.
Considero como um dos elementos ou princípios caros à criação metodológica que essa pesquisa demanda o cuidado em não separar a imagem imaterial, produto da imaginação, das imagens materiais, defendendo que as segundas não se reduzem à sua materialidade, pois têm sempre relação direta com as primeiras. As imagens materiais guardam proveitosos conteúdos indiciários (Ginzburg, 1989) da permanente produção imaginária que permite a existência das instituições que habitam ou representam e, sobretudo, dos sentidos das práticas que as constituem. Assim, os modos, modas e maneiras dos jovens, de ser e estar no mundo muito podem revelar sobre a escola e sobre a pertinência e conseqüência de suas políticas, currículos e demais ações.
Entrevistas, descrições densas, fotografias produzidas pelos próprios jovens constituirão as bases das investigações. Dessa maneira, a pesquisa se dará a partir do trabalho de campo em colégios públicos do Estado do Rio de Janeiro com alunos do ensino médio. A prática metodológica deste trabalho de observação será constituída principalmente com fotografias, criações imagéticas e vídeos, material apropriado para o registro e exame detido do uso dos corpos na produção de atitudes, posturas e posicionamento dos alunos diante das diversas situações cotidianas que acontecem quando procuram declarar o primado da independência e afirmação da vontade. Procedimento que será completado com a própria observação sistemática de como elaboram no espaço escolar a corporeidade e produzem o território estético, portanto, político dos corpos pessoais e coletivos em interação e realização de imagens.

Resultados esperados
O alcance dos objetivos da pesquisa proposta deverá compreender informações, críticas e reflexões com consistência adequada à publicação e circulação no meio educacional, voltada para o âmbito da formação docente e em especial, para o docente em Artes. De modo a contribuir com a atualização dos currículos no que tange à compreensão das culturas juvenis emergentes, suas realizações estéticas, suas visualidades e modos de fazê-las fulgurar e circular e nas relações com o universo da Cultura Visual que relativiza e abrange para além do circuito das Artes outorgadas. Esperamos também que os estudantes envolvidos com a pesquisa aprimorem não só suas pesquisas individuais, mas, também suas formações acadêmicas como futuros docentes em licenciaturas.


Bibliografia
AGAMBEM, Giorgio. O homem sem conteúdo. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
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ALVES, Nilda e GARCIA, Regina Leite (orgs.). O sentido da Escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. ALVES, Nilda e OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Pesquisa no/do cotidiano das escolas: sobre rede de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
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ALVES, Nilda e GARCIA, Regina Leite (orgs.). O sentido da Escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
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PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2005.
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SCHNITMAN, Dora Fried. Novos paradigmas, cultura e subjetividade, RS, Porto Alegre: Artmed, 1996.
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TÍTULO DA PESQUISA

A imagem da Escola: cultura visual, arte e formação docente em artes visuais.

PERÍODO:

2014 - 2015

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

Redes de conhecimentos e práticas emancipatórias no cotidiano escolar

FINANCIAMENTO(S)

FAPERJ

Este projeto de pesquisa é um dos desdobramentos centrais das investigações do grupo de pesquisa interinstitucional (Instituto Multidisciplinar da UFRRJ e Instituto de Artes da UERJ) Estudos Culturais em Educação e Artes cujo campo de interesse é a rede de relações entre a Educação e a Arte na formação docente na contemporaneidade face à diversidade de culturas, subjetividades e potencias estéticos que constituem o universo escolar. A finalidade do projeto “A imagem na escola: cultura visual, arte e formação escolar” é o investimento na elucidação das relações atuais de estudantes da Educação Básica de escolas públicas no Estado do Rio de Janeiro com o universo da Cultura Visual com a intenção de favorecer o aprimoramento, atualização e fortalecimento da formação dos licenciandos em Artes Visuais por meio da implantação e utilização de laboratório de investigação pedagógica em Artes Visuais/Cultura Visual. A aludida elucidação envolverá processos de exploração do imaginário visual / simbólico circulante meio às culturas infanto-juvenis; experimentações de atividades didático-pedagógicas de Artes Visuais; estudos; criações e experimentações no âmbito da Cultura Visual meio aos programas curriculares oficiais, e de suas praticas, envolvendo pesquisas de mestrado, doutorado, mediações com docentes estudantes da Educação Básica e estudantes dos cursos de Licenciatura em Artes Visuais e suas ações de iniciação à docência em parceria da universidade com escolas públicas.

    

TÍTULO DA PESQUISA

Saúde e Arte: laboratório de multilinguagens de práticas artísticas (HUPE)

PERÍODO:

2013 - 2015

LINHA DE PESQUISA

Cotidianos, Redes Educativas e Processos Culturais

GRUPO(S) DE PESQUISA

Redes de conhecimentos e práticas emancipatórias no cotidiano escolar

FINANCIAMENTO(S)

FAPERJ - Apoio às Universidades Públicas do Estado do Rio de Janeiro 2013

O presente projeto é a realização de uma parceria entre o Instituto de Artes e a Unidade Docente e Assistencial de Psiquiatria do Hospital Universitário Pedro Ernesto. O propósito desse esforço é criar um espaço de pesquisa que redunde em benefícios para ambas unidades acadêmicas, tanto no aspecto acadêmico, com resultados positivos para as pesquisas e fortalecimento intelectual dos estudantes engajados, quanto nos procedimentos que envolvam os atendimentos aos pacientes assistidos pela unidade clínica.
A elaboração do projeto se baseia em algumas premissas, como as notórias experiências bem sucedidas no trato clínico de pacientes psiquiátricos que se valeram da produção plástica, estética e poética; o interesse e necessidade das duas unidades universitárias de expandirem suas atuações no âmbito da pesquisa aplicada e no desfronteiramento disciplinar de seu enredamento acadêmico; o propósito de alcançar via a efetivação de práticas específicas, a qualidade do atendimento clínico e a ampliação da compreensão da relação humana com a produção artística assim como propiciar maior aprofundamento da investigação entre criação estética e diversidade humana e, sobretudo, incentivar e investir em atividades que permitam, via realizações práticas de importância comunitária, a ampliação da qualidade da produção teórica das áreas de estudo envolvidas, além, certamente, dos benefícios aos pacientes e demais usuários do laboratório de práticas artísticas.